espaço que alicia o pensamento, particularmente o perverso
12
Abr 12
publicado por rogerio, às 17:30link do post | comentar

 

Este blog regressará ao "activo" brevemente.

 

Obrigado :)


10
Abr 07
publicado por rogerio, às 00:53link do post | comentar | ver comentários (1)

 

Entre quatro paredes que me abraçam,
resguardo-me no silêncio que me arrepia
Os demónios que por mim passam,
o coração então trespassam
e abandonam-me em agonia

 

Devastado pelos pensamentos,
liberto lágrimas de dor
Recrio pequenos momentos,
feitos de nobres sentimentos
e onde me mato sem pudor


03
Dez 06
publicado por rogerio, às 04:00link do post | comentar | ver comentários (4)
Os amantes de hoje preferem a droga mais leve, o tabaco mais light ou o café descafeinado. Já ninguém quer ficar pedrado de amor ou sofrer de uma overdose de paixão. As emoções fortes são fracas e as próprias fraquezas revelam-se mais fortes. Os amantes, esses, são igualmente namorados da monotonia e amigos íntimos da disciplina. O que está fora de controlo causa-lhes confusão, e afecta-lhes uma certa zona do cérebro, mas quase nunca lhes toca o coração. O amor devia ser sonhado e devia fazê-los voar; em vez disso é planeado, e quanto muito, fá-los pensar.
Sobre o amor não se tem controlo. É um sentimento que nos domina, que nos sufoca e que nos mata. Depois dá-nos um pouco vida. No amor queremos viver, mas pouco nos importa morrer e estamos sempre dispostos a ir mais além. Deixamo-nos cair em tentação, e não nos livramos do mal, embora procuremos o bem. No amor também se tem fé, mas não se conhecem orações: amamos porque cremos, porque desejamos e porque sabemos que o amor existe. Amamos sem saber se somos amados, e por isso podemos acabar desolados, isolados e deprimidos. Que se lixe! O amor não é justo, não é perfeito; no amor não se declaram sentenças nem se proferem comunicados. O amor prefere ser imprevisível, cheio de riscos e de fogo cruzado. No amor os braços não se cruzam, as palavras não se gastam e os gestos servem para o demonstrar. Amar também é lutar, e enfrentar monstros fabulosos com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão. É uma ilusão, um sonho, um absurdo e uma fantasia. O amor não se entende, não se interpreta, não se discerne nem se traduz. Quem ama acredita, mas não sabe bem porquê, não sabe bem o quê, nem percebe bem como.

12
Nov 05
publicado por rogerio, às 15:34link do post | comentar | ver comentários (1)


A cidade da luz està em chamas! Pela 16ª noite consecutiva continuam-se a queimar automóveis; há quem já lhes chame os incêndios dos tempos modernos...

10
Nov 05
publicado por rogerio, às 18:24link do post | comentar
Há poucos dias atràs revistariam minuciosamente o Nobel da Paz, El-Baradei, num aeroporto em Boston. No mesmo dia um chinês seria preso por partilhar três filmes na rede. Enquanto isso, ardiam-me automóveis em Paris, e, curiosamente, porventura à mesma hora, alguém planeava roubar a minha bicicleta. E perguntam-me vocês - “Mas que raio de relação existe entre o Nobel da Paz, o pirata chinês, os piromaníacos parisienses e o ladrão de bicicletas?” - Pois bem, se e em vez de prender o chinês prendessem os piromanìacos parisienses, e em vez de revistar o Nobel da Paz fizessem uma revista à casa do chinês, e em vez de roubar bicicletas fossem arder para Paris (!) a situação estaria normalizada.

09
Nov 05
publicado por rogerio, às 14:18link do post | comentar
Sacou de uma cigarrilha “Fortuna”; empenhou a mão para retirar o isqueiro verde-alface do bolso e acendeu o tabaco, consumindo depois quase um quarto da sua totalidade. Virou-se então para mim; ofereceu-me com delicadeza o fumo proveniente dos pulmões – por certo fartos de receber tanto vapor nas suas imediações – e entregou-me finalmente uma folha, provavelmente para preencher com todos os dados do ocorrido (incluindo os totalmente inúteis, estranhos e desnecessários). Fiz então a pergunta parva do dia - “Esta folha é para preencher?” - ao que o homem responderia com um abanar de cabeça positivo, sem a mínima contestação e com a máxima ligeireza.
Acabara de entregar ao segurança completamente despreocupado do portal-nascente - aquele que está para ali parado a olhar para as gajas que vão passando pelo campus nas suas bicicletas, enquanto fuma, tira macacos e se queixa do salário reduzido que recebe no final do mês - o alegado caso do roubo da minha bicicleta, completamente normal e de cor facilmente confundível. Lembrei-me nesse momento das palavras do meu colega espanhol lá da faculdade - “Deves ter cuidado com isso, por aqui costumam-se roubar muitas!” - Depois veio-me á memória as palavras do italiano lá de casa - “Esta corrente com a qual prendes a bicicleta não é muito segura!” -Finalmente, e depois de tanto pensar nos erros cometidos e nos sinais que me teriam evitado tal roubo, percebi o quanto sou estúpido.
Apanho finalmente o Autocarro 34, com destino á Plaza Nueva. Só me ocorre uma palavra -”Porra!!” - e é a que melhor encontro para descrever tal situação.

09
Set 05
publicado por rogerio, às 18:16link do post | comentar | ver comentários (3)
Trazia ás costas um saco velho, grande e preto, e é quase certo que não sorria. A barba sebosa e quase toda branca descia-lhe de forma selvagem até ao peito e escondia naturalmente os seus traços e a sua tez morena, característica que se desvendada a partir da testa queimada por um sol que deixara de brilhar. Usava uns trapos enrolados ao corpo e os seus pés descalços e sujos vagueavam por todas as superfícies geladas e perigosas da grande cidade, mas o homem parecei nem se importar com o solo que pisava.
Sentou-se por fim num banco de jardim e pôs-se a observar o Finantial Times. Podia até ser um grande homem de negócios, despojado por fim de todos os seus bens materiais, ou simplesmente um homem demasiado simples, preocupado com coisas demasiado complexas. Era estranho: um homem certamente português e aparentemente sem qualquer tipo de habilitações a ler publicações anglo-saxónicas, com a complexidade do Finantial Times. Fiquei a pensar se este não estaria simplesmente a olhar para as imagens do jornal, que, posteriormente, e por ser grande, serviria muito bem para cobrir o seu corpo, tentando enganar o frio que se fazia sentir na grande cidade.
Ninguém, por uma única vez, ousou aproximar-se do homem, que, ainda que de aspecto imundo, aparentava ser uma pessoa pacífica e acessível. A noite finalmente caiu e este deixou-se ficar deitado no banco de jardim, coberto por todas aquelas notícias de economia, e, enquanto os mercados mundiais oscilavam, o velho do banco de jardim continuava sem um único tostão no bolso.

22
Mar 05
publicado por rogerio, às 12:51link do post | comentar | ver comentários (8)

“Memória das minhas p*tas tristes”. O título seria de todo proibitivo se o Nobel Gabriel Garcia Marquez não ostentasse tão enorme galardão e não ocupasse tão nobre estatuto?...Estou-me a lembrar de um título que foi alvo de uma contestação sem precedentes (ou pelo menos serviu, para, por momentos, reacender o tema da censura). Um espanhol, até de nome provocatório (Alvarez Rabo), escrevia há já algum tempo: “As mulheres não gostam de f***r”. Foi de resto proibida a exposição de tal ensaio sexual, em banda desenhada, numa montra em Viseu; resta saber se: porque as mulheres efectivamente gostam de f***r (e isso seria uma calúnia imensurável!), ou pela natureza brutal das suas palavras. Mais recentemente, GGM, esse extraordinário escritor, contemplar-nos-ia com a já referida “Memória das minhas p*tas tristes”. Haverá diferença substancial entre estes títulos?...Em França, um pretenso filme convencional, mas de cariz puramente pornográfic*, saltava timidamente para os escaparates das salas de cinema…tendo sido proibido na maior parte delas. “Bais*-moi”, assim se chamava o filme, que, traduzido à letra (forma pouco portuguesa), daria algo do tipo: “F***-me”, ou “Fuc*-me”, numa leitura mais universal e abrangente. Depois de assistir ao lançamento destes livros e à forma tão permissiva com que os vemos expostos nas montras das livrarias ou nas entradas dos super-mercados, perto de todo o tipo de olhares, apetece-me escrever alguma coisa que chame a atenção do leitor e que o permita lançar um risinho contido, fazendo-o até pestanejar, incrédulo, perante título tão originalmente invulgar. E que tal: “A p*ta virgem”, ou…”Os sete filhos do capad*”? …é só uma ideia! … Se me criticarem pela escolha tão infeliz do título ou pela forma tão grosseira de abordar o tema, sempre posso utilizar o típico discurso da minoria injustiçada, tão habituada a falar de “liberdade de expressão” e do pós-vinte e cinco de Abril.


16
Fev 05
publicado por rogerio, às 15:02link do post | comentar | ver comentários (14)
O futebol no nosso país, arrisca-se, pela enésima vez, a ser o mais entusiástica e estupidamente debatido fora das quatro linhas. Os comentários de treinadores de bancada manifestamente insatisfeitos com um sistema montado ou com uma conspiração inteligentemente construída, lançam cada vez mais ataques pessoais, que, obviamente, não se coadunam com a figura credível que muitas das vezes representam, ou simplesmente fazem passar.
Miguel Sousa Tavares, lançava, há algum tempo, ataques directos e em todas direcções, ao povo madeirense e a um clube ironicamente designado de “Nacional”. O seu plantel, maioritariamente constituído por brasileiros, era, na opinião desse digníssimo senhor, razão das mais ferozes críticas. O que mais me causou confusão, no entanto, foi o facto de este apelidar a claque deste clube de ‘terceiro-mundista’, pela simples razão de ter um grupo de mulheres tão empenhadas em apoiar a sua equipa. Os gritos histéricos destas mulheres, conjuntamente com os ruídos dos tambores, deveriam, provavelmente, causar ao homem alguma confusão e revolta. (Abaixo as mulheres no futebol e as cantorias de músicas com raízes culturais bastante vincadas. Bailinho da Madeira?...O que é isso?!). Se calhar, por todos aqueles países por onde passou (que agora até saíram documentados em livro), apenas encontrou claques semelhantes àquela em partes do mundo tão subdesenvolvidas como o Ruanda ou a Tanzânia. A sua opinião será sem dúvida muito mais fundamentada que a minha. A minha experiência, em termos de viagens, resume-se a duas ou três idas à Madeira durante o ano, e a pouquíssimas viagens a Espanha.
No meio deste cerco de ataques, teria ainda tempo para dizer que o ‘Bailinho da Madeira’, seria, na sua opinião, provavelmente a pior música do muno. Pois bem, eu também não adoro aquele tipo de música, quase tão folclórica quanto este senhor, mas daí a lhe chamar a pior do mundo, vai uma distância significativamente considerável. Seria como classificar o ‘Equador’ (livro desta ilustre personagem), como o pior romance de todos os tempos do panorama romancista português. São meros ataques pessoais que fazem tanto sentido quanto os ataques do Alberto João ao poder lisboeta. A única diferença é que todos dizem mal do Alberto, independentemente da sua obra na região. No caso deste senhor (Miguel Sousa Tavares), pela sua obra e (aparente) credibilidade, calam-se e até acham fundamentadas as suas tristes opiniões, que não são mais que insultos, disfarçados de credibilidade e bom senso.
Deixa ver se percebi a ideia…O C D Nacional deverá apostar nas grandes promessas do mercado português e criar o seu plantel apenas com jogadores portugueses, de modo a criar a “selecção Nacional” da super-liga. É muito fácil falar nestes termos quando o mercado nacional é tão vasto em talentos futebolísticos e quando o clube está localizado numa zona periférica, como é a Madeira. O que não faltará serão talentos futebolísticos decididos a pertencer àquele clube, que recentemente (dois ou três anos) subiu à super-liga (?) Este homem deve perceber tanto de futebol quanto eu percebo de culinária (opsss…deixei novamente queimar o ovo estrelado…).
Não gosto de atacar ninguém indirectamente, mas, dadas as circunstâncias, faço um ataque ao FCP, por meio da sua pessoa, ilustríssimo Miguel Sousa Tavares: o seu plantel não estará, neste momento, demasiadamente abrasileirado? (olhe lá os telhados de vidro…). Um clube como o Porto tem obviamente maiores capacidades financeiras para apostar nos grandes talentos lusitanos. Aos outros, não restam muitas opções. É óbvio que o mercado brasileiro é a alternativa mais óbvia, e, de certo modo, mais credível. Não quero com isto dizer que acho bem que a maioridade do plantel seja brasileiro, só quero que perceba que os bons valores portugueses, mais cedo ou mais tarde, acabam por ir para os grandes clubes, não restando ao outros, outra alternativa, que não seja recorrer ao mercado extra-comunitário. Poderá não ser tão linear como estou a queres fazer passar, mas a verdade é que não estou a ver o Simão trocar o Benfica pelo Penafiel ou o Maniche mudar para o Belenenses. No dia em que isso acontecer, porém, será bom sinal! Seria a prova de que o futebol português finalmente se passava a jogar entre mais que três equipas (mas não falemos de utopia).

Há uma coisa da qual acho que devemos ser independentes: do presidente que comanda uma região. Se o Alberto João faz merda (e desculpem-me a puta da sinceridade), não serei eu nem outro madeirense qualquer o culpado pelas suas barbaridades! Se um povo efectivamente trabalha, mas é constantemente criticado por viver à custa dos dinheiros do estado, só nos resta revoltarmo-nos contra o sistema (que afinal existe!). Um sistema que é nitidamente controlado pela opinião pública viciada e pelos políticos e restantes ilustres, que deixam passar somente a imagem de pessoas íntegras e respeitáveis. Há poucos dias falava-se da política e da vida privada dos candidatos. A maior parte era da opinião de que a sua vida privada de nada deveria influenciar a intenção de voto do eleitor. Pois bem, acho que existem questões delicadas, e esta é uma delas: não estou disposto a votar em nenhum homem que abuse de criancinhas ou que tenha uma vida menos ortodoxa ou simplesmente condenável. Posso chamar a um homem “grande pela sua obra” mas “desprezível” pela sua conduta (?). (Mais depressa votaria numa pessoa que se ousa divertir, e por vezes até é apanhado de cuecas durante o Carnaval!...Vida privada deveria ser “privada”. Certo?!). Mas esqueçamos pura e simplesmente esta parte…No caso de Miguel Sousa Tavares, parece que a sua conduta é o fruto venenoso da sua obra. Enquanto que escreveu meia dúzia de linhas na imprensa ou deu a conhecer livros que denotam um bom gosto por parte de quem os escreve, deve se julgar o super-homem dos insultos! Entre o Alberto João e este senhor, venha o Diabo e escolha (Boa sorte, Diabo!).
Para o tipo, parece existir uma linha demasiadamente ténue a separar a região, os seus habitantes, o clube e os seus profissionais. Se é tudo farinha do mesmo saco, daqui a dias ainda se dirá que a Grécia está a anos-luz, ao nível do desenvolvimento, quando
comparada com Portugal. Ao menos esta primeira é campeã europeia de futebol!

Repare-se, que, a mesma pessoa que critica o Estádio da Choupana por parecer um quintal rodeado por um arame por todos os lados, e onde é impossível jogar bom futebol, é a mesma, no entanto, que critica o Nacional por se aguentar na Superliga graças aos dinheiros do governo regional. Se calhar o governo regional (a serem verdadeiras as suas declarações), prefere criar primeiro uma grande equipa, que até “se aguenta” bem na Superliga e chega inclusive a lutar pelos lugares cimeiros, levando por vezes o nome da Madeira a outras paragens (repare-se que em dois ou três anos na Superliga conseguiu alcançar um lugar nas competições europeias!), em vez de apostar num estádio monstruoso. Com a imensidão de pessoas que existe naquela zona é sem dúvida necessário a criação de um gigantesco estádio (?). Este deve ser daqueles que achou bem a criação dos dez estádios de futebol por todo o país, curiosamente, também com o apoio do governo, para vê-los agora, e à maior parte, ás moscas e com meia dúzia de gatos-pingados “a preencher” as milhares de cadeiras.

Reiterando as suas palavras num dos artigos d’ A BOLA, “ainda bem que chegou o 25 de Abril”, para me poder dirigir com toda a liberdade de expressão à sua pessoa e lhe dizer que esse artigo é uma autêntica merda, para além de infame e calunioso!






Pequenos excertos do magnífico artigo do ilustríssimo Dr. Miguel Sousa Tavares:

a) O Nacional da Madeira só se aguenta na Superliga graças aos subsídios do Governo Regional;

b) Jogou contra o FC Porto com doze estrangeiros e dois portugueses;

c) Tem um «Estádio» que parece um quintal rodeado por um arame e onde é impossível jogar bom futebol;

d) Tem um coro de mulheres que parece um coro de berberes histéricas, gritando durante todo o jogo aos microfones da televisão;

e) Cantam infatigavelmente o Bailinho da Madeira, provavelmente a pior música do mundo.

14
Fev 05
publicado por rogerio, às 19:39link do post | comentar | ver comentários (2)
Na sala de cinema.

De repente, a melancólica música que tomara por momentos conta da enorme sala, deu lugar a uma série de destaques de filmes hollywoodescos em estreia e de outros ainda por estrear, na tão conhecida “sala de cinema perto de si”, que se tornara invariavelmente num chavão quase desnecessário. Pouco tempo depois, uma voz feminina, por meio de um sistema de som surround, proferia num tom alto que ecoava por toda a sala: “Obrigado por não fumar”. As luzes apagaram-se e a escuridão total durou uma fracção de segundos. Somente o início do filme me fez despertar daquela vaga e inquietante sonolência, que me avassalara desde o momento que me ousei sentar naquela confortável cadeira, que me enterrava de uma forma quase alienante. Olhei de repente para o lado e deparei-me com uma casal de namorados entretidos entre beijos ofegantes e pipocas ruidosas. De repente, e após uma reacção quase selvagem do namorado, ela ficara na eminência de derramar para cima de mim a Coca Cola light que ia deixando aos poucos fugir das mãos suaves, momentaneamente rendidas áquele abraço instintivo e feroz do seu companheiro, que parecia agora insaciavelmente desejoso por uma experiência sexual de todo proibida naquele local. Nos bancos da frente, entre três amigos muito próximos, de onde se destacava uma linda jovem de cabelos louros e olhos incrivelmente bem desenhados, trocavam-se ideias mirabolantes acerca do filme que estava mesmo a começar. A sua visão cinematográfica era quase constrangedora e notavelmente escatológica. “É neste filme que entra aquela gaja boa do Star Trek, não é? A Natalie…Natalie qualquer coisa…”, dizia um puto sem esconder o seu ar de assumido machão e desejoso por possuir aquela actriz, que parecia preencher o seu imaginário de menino de liceu extremamente precoce, mas notavelmente mimado. Apercebera-me logo que se referiam a Natalie Portman. Se calhar, e por dar tão pouco nas vistas, acabara por alcançar um estatuto de ilustre desconhecida: a tal ‘Natalie qualquer coisa’. Certamente, e para o tipo da frente, se se tratasse de Sharon Stone, dificilmente hesitaria. (É quase impossível alguém hesitar: ‘Sharon qualquer coisa’, é algo que não faz qualquer sentido).
Por momentos pensei que faltava alguém ali. Dia de S. Valentim…que terrível coincidência: os tipos do lado continuavam com aquela troca de carícias quase enjoativa e eu tornara-me quase um voyeur daquele espectáculo montado mesmo ao meu lado. Os sons dos lábios que rapidamente se descolavam misturavam-se com aquele ruidoso mastigar de pipocas e com aquela troca de palavras doces, quase tão repetitivas quanto aqueles sons que já se tornavam terrivelmente monótonos e desgastantes.
Por fim, parece que o silêncio do lado de cá do ecrã tornara-se uma realidade, e de repente fiquei preso, mais uma vez, às vidas ímpares e completamente banais de pessoas tão banais quanto nós, mas desta vez o espectáculo era do outro lado do ecrã…
Apercebi-me mais tarde que tinha adormecido durante grande parte do filme e alguém parecia ter-me acordado daquele sono pouco apropriado. A rapariga dos olhos extremamente bem desenhados apareceu à minha frente com um sorriso que me despertava muito mais do que qualquer balde de água fria que me ousassem naquele momento atirar. Ela acabou por me acordar com um ligeiro toque no ombro, que culminou com um sorriso cinematográfico e finalizou com um olhar incrivelmente penetrante. “Acabas de perder um filme sensacional…Natalie Portman provavelmente no melhor papel de toda a sua carreira…”. As suas palavras tinham a sensibilidade de quem parecia se ter comovido com o filme e a sua sensualidade parecia tornar as mesmas palavras ainda mais deliciosamente contagiantes…Acabei invariavelmente por ficar feliz naquele momento, mesmo sem ter visto qualquer parte do filme…

FIM


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