espaço que alicia o pensamento, particularmente o perverso
16
Fev 05
publicado por rogerio, às 15:02link do post | comentar | ver comentários (14)
O futebol no nosso país, arrisca-se, pela enésima vez, a ser o mais entusiástica e estupidamente debatido fora das quatro linhas. Os comentários de treinadores de bancada manifestamente insatisfeitos com um sistema montado ou com uma conspiração inteligentemente construída, lançam cada vez mais ataques pessoais, que, obviamente, não se coadunam com a figura credível que muitas das vezes representam, ou simplesmente fazem passar.
Miguel Sousa Tavares, lançava, há algum tempo, ataques directos e em todas direcções, ao povo madeirense e a um clube ironicamente designado de “Nacional”. O seu plantel, maioritariamente constituído por brasileiros, era, na opinião desse digníssimo senhor, razão das mais ferozes críticas. O que mais me causou confusão, no entanto, foi o facto de este apelidar a claque deste clube de ‘terceiro-mundista’, pela simples razão de ter um grupo de mulheres tão empenhadas em apoiar a sua equipa. Os gritos histéricos destas mulheres, conjuntamente com os ruídos dos tambores, deveriam, provavelmente, causar ao homem alguma confusão e revolta. (Abaixo as mulheres no futebol e as cantorias de músicas com raízes culturais bastante vincadas. Bailinho da Madeira?...O que é isso?!). Se calhar, por todos aqueles países por onde passou (que agora até saíram documentados em livro), apenas encontrou claques semelhantes àquela em partes do mundo tão subdesenvolvidas como o Ruanda ou a Tanzânia. A sua opinião será sem dúvida muito mais fundamentada que a minha. A minha experiência, em termos de viagens, resume-se a duas ou três idas à Madeira durante o ano, e a pouquíssimas viagens a Espanha.
No meio deste cerco de ataques, teria ainda tempo para dizer que o ‘Bailinho da Madeira’, seria, na sua opinião, provavelmente a pior música do muno. Pois bem, eu também não adoro aquele tipo de música, quase tão folclórica quanto este senhor, mas daí a lhe chamar a pior do mundo, vai uma distância significativamente considerável. Seria como classificar o ‘Equador’ (livro desta ilustre personagem), como o pior romance de todos os tempos do panorama romancista português. São meros ataques pessoais que fazem tanto sentido quanto os ataques do Alberto João ao poder lisboeta. A única diferença é que todos dizem mal do Alberto, independentemente da sua obra na região. No caso deste senhor (Miguel Sousa Tavares), pela sua obra e (aparente) credibilidade, calam-se e até acham fundamentadas as suas tristes opiniões, que não são mais que insultos, disfarçados de credibilidade e bom senso.
Deixa ver se percebi a ideia…O C D Nacional deverá apostar nas grandes promessas do mercado português e criar o seu plantel apenas com jogadores portugueses, de modo a criar a “selecção Nacional” da super-liga. É muito fácil falar nestes termos quando o mercado nacional é tão vasto em talentos futebolísticos e quando o clube está localizado numa zona periférica, como é a Madeira. O que não faltará serão talentos futebolísticos decididos a pertencer àquele clube, que recentemente (dois ou três anos) subiu à super-liga (?) Este homem deve perceber tanto de futebol quanto eu percebo de culinária (opsss…deixei novamente queimar o ovo estrelado…).
Não gosto de atacar ninguém indirectamente, mas, dadas as circunstâncias, faço um ataque ao FCP, por meio da sua pessoa, ilustríssimo Miguel Sousa Tavares: o seu plantel não estará, neste momento, demasiadamente abrasileirado? (olhe lá os telhados de vidro…). Um clube como o Porto tem obviamente maiores capacidades financeiras para apostar nos grandes talentos lusitanos. Aos outros, não restam muitas opções. É óbvio que o mercado brasileiro é a alternativa mais óbvia, e, de certo modo, mais credível. Não quero com isto dizer que acho bem que a maioridade do plantel seja brasileiro, só quero que perceba que os bons valores portugueses, mais cedo ou mais tarde, acabam por ir para os grandes clubes, não restando ao outros, outra alternativa, que não seja recorrer ao mercado extra-comunitário. Poderá não ser tão linear como estou a queres fazer passar, mas a verdade é que não estou a ver o Simão trocar o Benfica pelo Penafiel ou o Maniche mudar para o Belenenses. No dia em que isso acontecer, porém, será bom sinal! Seria a prova de que o futebol português finalmente se passava a jogar entre mais que três equipas (mas não falemos de utopia).

Há uma coisa da qual acho que devemos ser independentes: do presidente que comanda uma região. Se o Alberto João faz merda (e desculpem-me a puta da sinceridade), não serei eu nem outro madeirense qualquer o culpado pelas suas barbaridades! Se um povo efectivamente trabalha, mas é constantemente criticado por viver à custa dos dinheiros do estado, só nos resta revoltarmo-nos contra o sistema (que afinal existe!). Um sistema que é nitidamente controlado pela opinião pública viciada e pelos políticos e restantes ilustres, que deixam passar somente a imagem de pessoas íntegras e respeitáveis. Há poucos dias falava-se da política e da vida privada dos candidatos. A maior parte era da opinião de que a sua vida privada de nada deveria influenciar a intenção de voto do eleitor. Pois bem, acho que existem questões delicadas, e esta é uma delas: não estou disposto a votar em nenhum homem que abuse de criancinhas ou que tenha uma vida menos ortodoxa ou simplesmente condenável. Posso chamar a um homem “grande pela sua obra” mas “desprezível” pela sua conduta (?). (Mais depressa votaria numa pessoa que se ousa divertir, e por vezes até é apanhado de cuecas durante o Carnaval!...Vida privada deveria ser “privada”. Certo?!). Mas esqueçamos pura e simplesmente esta parte…No caso de Miguel Sousa Tavares, parece que a sua conduta é o fruto venenoso da sua obra. Enquanto que escreveu meia dúzia de linhas na imprensa ou deu a conhecer livros que denotam um bom gosto por parte de quem os escreve, deve se julgar o super-homem dos insultos! Entre o Alberto João e este senhor, venha o Diabo e escolha (Boa sorte, Diabo!).
Para o tipo, parece existir uma linha demasiadamente ténue a separar a região, os seus habitantes, o clube e os seus profissionais. Se é tudo farinha do mesmo saco, daqui a dias ainda se dirá que a Grécia está a anos-luz, ao nível do desenvolvimento, quando
comparada com Portugal. Ao menos esta primeira é campeã europeia de futebol!

Repare-se, que, a mesma pessoa que critica o Estádio da Choupana por parecer um quintal rodeado por um arame por todos os lados, e onde é impossível jogar bom futebol, é a mesma, no entanto, que critica o Nacional por se aguentar na Superliga graças aos dinheiros do governo regional. Se calhar o governo regional (a serem verdadeiras as suas declarações), prefere criar primeiro uma grande equipa, que até “se aguenta” bem na Superliga e chega inclusive a lutar pelos lugares cimeiros, levando por vezes o nome da Madeira a outras paragens (repare-se que em dois ou três anos na Superliga conseguiu alcançar um lugar nas competições europeias!), em vez de apostar num estádio monstruoso. Com a imensidão de pessoas que existe naquela zona é sem dúvida necessário a criação de um gigantesco estádio (?). Este deve ser daqueles que achou bem a criação dos dez estádios de futebol por todo o país, curiosamente, também com o apoio do governo, para vê-los agora, e à maior parte, ás moscas e com meia dúzia de gatos-pingados “a preencher” as milhares de cadeiras.

Reiterando as suas palavras num dos artigos d’ A BOLA, “ainda bem que chegou o 25 de Abril”, para me poder dirigir com toda a liberdade de expressão à sua pessoa e lhe dizer que esse artigo é uma autêntica merda, para além de infame e calunioso!






Pequenos excertos do magnífico artigo do ilustríssimo Dr. Miguel Sousa Tavares:

a) O Nacional da Madeira só se aguenta na Superliga graças aos subsídios do Governo Regional;

b) Jogou contra o FC Porto com doze estrangeiros e dois portugueses;

c) Tem um «Estádio» que parece um quintal rodeado por um arame e onde é impossível jogar bom futebol;

d) Tem um coro de mulheres que parece um coro de berberes histéricas, gritando durante todo o jogo aos microfones da televisão;

e) Cantam infatigavelmente o Bailinho da Madeira, provavelmente a pior música do mundo.

14
Fev 05
publicado por rogerio, às 19:39link do post | comentar | ver comentários (2)
Na sala de cinema.

De repente, a melancólica música que tomara por momentos conta da enorme sala, deu lugar a uma série de destaques de filmes hollywoodescos em estreia e de outros ainda por estrear, na tão conhecida “sala de cinema perto de si”, que se tornara invariavelmente num chavão quase desnecessário. Pouco tempo depois, uma voz feminina, por meio de um sistema de som surround, proferia num tom alto que ecoava por toda a sala: “Obrigado por não fumar”. As luzes apagaram-se e a escuridão total durou uma fracção de segundos. Somente o início do filme me fez despertar daquela vaga e inquietante sonolência, que me avassalara desde o momento que me ousei sentar naquela confortável cadeira, que me enterrava de uma forma quase alienante. Olhei de repente para o lado e deparei-me com uma casal de namorados entretidos entre beijos ofegantes e pipocas ruidosas. De repente, e após uma reacção quase selvagem do namorado, ela ficara na eminência de derramar para cima de mim a Coca Cola light que ia deixando aos poucos fugir das mãos suaves, momentaneamente rendidas áquele abraço instintivo e feroz do seu companheiro, que parecia agora insaciavelmente desejoso por uma experiência sexual de todo proibida naquele local. Nos bancos da frente, entre três amigos muito próximos, de onde se destacava uma linda jovem de cabelos louros e olhos incrivelmente bem desenhados, trocavam-se ideias mirabolantes acerca do filme que estava mesmo a começar. A sua visão cinematográfica era quase constrangedora e notavelmente escatológica. “É neste filme que entra aquela gaja boa do Star Trek, não é? A Natalie…Natalie qualquer coisa…”, dizia um puto sem esconder o seu ar de assumido machão e desejoso por possuir aquela actriz, que parecia preencher o seu imaginário de menino de liceu extremamente precoce, mas notavelmente mimado. Apercebera-me logo que se referiam a Natalie Portman. Se calhar, e por dar tão pouco nas vistas, acabara por alcançar um estatuto de ilustre desconhecida: a tal ‘Natalie qualquer coisa’. Certamente, e para o tipo da frente, se se tratasse de Sharon Stone, dificilmente hesitaria. (É quase impossível alguém hesitar: ‘Sharon qualquer coisa’, é algo que não faz qualquer sentido).
Por momentos pensei que faltava alguém ali. Dia de S. Valentim…que terrível coincidência: os tipos do lado continuavam com aquela troca de carícias quase enjoativa e eu tornara-me quase um voyeur daquele espectáculo montado mesmo ao meu lado. Os sons dos lábios que rapidamente se descolavam misturavam-se com aquele ruidoso mastigar de pipocas e com aquela troca de palavras doces, quase tão repetitivas quanto aqueles sons que já se tornavam terrivelmente monótonos e desgastantes.
Por fim, parece que o silêncio do lado de cá do ecrã tornara-se uma realidade, e de repente fiquei preso, mais uma vez, às vidas ímpares e completamente banais de pessoas tão banais quanto nós, mas desta vez o espectáculo era do outro lado do ecrã…
Apercebi-me mais tarde que tinha adormecido durante grande parte do filme e alguém parecia ter-me acordado daquele sono pouco apropriado. A rapariga dos olhos extremamente bem desenhados apareceu à minha frente com um sorriso que me despertava muito mais do que qualquer balde de água fria que me ousassem naquele momento atirar. Ela acabou por me acordar com um ligeiro toque no ombro, que culminou com um sorriso cinematográfico e finalizou com um olhar incrivelmente penetrante. “Acabas de perder um filme sensacional…Natalie Portman provavelmente no melhor papel de toda a sua carreira…”. As suas palavras tinham a sensibilidade de quem parecia se ter comovido com o filme e a sua sensualidade parecia tornar as mesmas palavras ainda mais deliciosamente contagiantes…Acabei invariavelmente por ficar feliz naquele momento, mesmo sem ter visto qualquer parte do filme…

FIM


11
Fev 05
publicado por rogerio, às 15:37link do post | comentar | ver comentários (4)
Desta vez não se pode dizer que Portugal tenha honrado as cores nacionais. Contra uma Irlanda verde, mas completamente madura (e não se trata de nenhuma contradição!), os nossos jogadores alinhariam com um equipamento a preto e branco. Inicialmente, alguns diziam se tratar de uma campanha contra o racismo. Outros, porém, e depois daquele jogo, terão dito que a equipa estava de tal modo irreconhecível que não fazia qualquer sentido usar os uniformes habituais e as cores já nossas conhecidas. Preto e branco eram sem dúvida as cores ideias, (se bem que o branco não fizesse qualquer sentido, na opinião de alguns espectadores mais atentos). A continuar assim, com um sistema de jogo tão bem planeado e com uma táctica tão aprofundada, não fará qualquer sentido voltar ás cores originais (digo eu!).
Não sei se repararam, mas Mourinho também assistiu ao jogo. Não foi preciso o tipo proferir qualquer tipo de palavras, bastava olhar para a sua indumentária: o homem vinha vestido de preto dos pés à cabeça. Somente um homem como ele se anteciparia de tal forma e se vestiria tão a rigor para assistir a um jogo da selecção.

Será que esta campanha contra o racismo terá servido unicamente de rampa de lançamento para os novos equipamentos da selecção?

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