espaço que alicia o pensamento, particularmente o perverso
09
Set 05
publicado por rogerio, às 18:16link do post | comentar | ver comentários (3)
Trazia ás costas um saco velho, grande e preto, e é quase certo que não sorria. A barba sebosa e quase toda branca descia-lhe de forma selvagem até ao peito e escondia naturalmente os seus traços e a sua tez morena, característica que se desvendada a partir da testa queimada por um sol que deixara de brilhar. Usava uns trapos enrolados ao corpo e os seus pés descalços e sujos vagueavam por todas as superfícies geladas e perigosas da grande cidade, mas o homem parecei nem se importar com o solo que pisava.
Sentou-se por fim num banco de jardim e pôs-se a observar o Finantial Times. Podia até ser um grande homem de negócios, despojado por fim de todos os seus bens materiais, ou simplesmente um homem demasiado simples, preocupado com coisas demasiado complexas. Era estranho: um homem certamente português e aparentemente sem qualquer tipo de habilitações a ler publicações anglo-saxónicas, com a complexidade do Finantial Times. Fiquei a pensar se este não estaria simplesmente a olhar para as imagens do jornal, que, posteriormente, e por ser grande, serviria muito bem para cobrir o seu corpo, tentando enganar o frio que se fazia sentir na grande cidade.
Ninguém, por uma única vez, ousou aproximar-se do homem, que, ainda que de aspecto imundo, aparentava ser uma pessoa pacífica e acessível. A noite finalmente caiu e este deixou-se ficar deitado no banco de jardim, coberto por todas aquelas notícias de economia, e, enquanto os mercados mundiais oscilavam, o velho do banco de jardim continuava sem um único tostão no bolso.

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