espaço que alicia o pensamento, particularmente o perverso
14
Fev 05
publicado por rogerio, às 19:39link do post | comentar
Na sala de cinema.

De repente, a melancólica música que tomara por momentos conta da enorme sala, deu lugar a uma série de destaques de filmes hollywoodescos em estreia e de outros ainda por estrear, na tão conhecida “sala de cinema perto de si”, que se tornara invariavelmente num chavão quase desnecessário. Pouco tempo depois, uma voz feminina, por meio de um sistema de som surround, proferia num tom alto que ecoava por toda a sala: “Obrigado por não fumar”. As luzes apagaram-se e a escuridão total durou uma fracção de segundos. Somente o início do filme me fez despertar daquela vaga e inquietante sonolência, que me avassalara desde o momento que me ousei sentar naquela confortável cadeira, que me enterrava de uma forma quase alienante. Olhei de repente para o lado e deparei-me com uma casal de namorados entretidos entre beijos ofegantes e pipocas ruidosas. De repente, e após uma reacção quase selvagem do namorado, ela ficara na eminência de derramar para cima de mim a Coca Cola light que ia deixando aos poucos fugir das mãos suaves, momentaneamente rendidas áquele abraço instintivo e feroz do seu companheiro, que parecia agora insaciavelmente desejoso por uma experiência sexual de todo proibida naquele local. Nos bancos da frente, entre três amigos muito próximos, de onde se destacava uma linda jovem de cabelos louros e olhos incrivelmente bem desenhados, trocavam-se ideias mirabolantes acerca do filme que estava mesmo a começar. A sua visão cinematográfica era quase constrangedora e notavelmente escatológica. “É neste filme que entra aquela gaja boa do Star Trek, não é? A Natalie…Natalie qualquer coisa…”, dizia um puto sem esconder o seu ar de assumido machão e desejoso por possuir aquela actriz, que parecia preencher o seu imaginário de menino de liceu extremamente precoce, mas notavelmente mimado. Apercebera-me logo que se referiam a Natalie Portman. Se calhar, e por dar tão pouco nas vistas, acabara por alcançar um estatuto de ilustre desconhecida: a tal ‘Natalie qualquer coisa’. Certamente, e para o tipo da frente, se se tratasse de Sharon Stone, dificilmente hesitaria. (É quase impossível alguém hesitar: ‘Sharon qualquer coisa’, é algo que não faz qualquer sentido).
Por momentos pensei que faltava alguém ali. Dia de S. Valentim…que terrível coincidência: os tipos do lado continuavam com aquela troca de carícias quase enjoativa e eu tornara-me quase um voyeur daquele espectáculo montado mesmo ao meu lado. Os sons dos lábios que rapidamente se descolavam misturavam-se com aquele ruidoso mastigar de pipocas e com aquela troca de palavras doces, quase tão repetitivas quanto aqueles sons que já se tornavam terrivelmente monótonos e desgastantes.
Por fim, parece que o silêncio do lado de cá do ecrã tornara-se uma realidade, e de repente fiquei preso, mais uma vez, às vidas ímpares e completamente banais de pessoas tão banais quanto nós, mas desta vez o espectáculo era do outro lado do ecrã…
Apercebi-me mais tarde que tinha adormecido durante grande parte do filme e alguém parecia ter-me acordado daquele sono pouco apropriado. A rapariga dos olhos extremamente bem desenhados apareceu à minha frente com um sorriso que me despertava muito mais do que qualquer balde de água fria que me ousassem naquele momento atirar. Ela acabou por me acordar com um ligeiro toque no ombro, que culminou com um sorriso cinematográfico e finalizou com um olhar incrivelmente penetrante. “Acabas de perder um filme sensacional…Natalie Portman provavelmente no melhor papel de toda a sua carreira…”. As suas palavras tinham a sensibilidade de quem parecia se ter comovido com o filme e a sua sensualidade parecia tornar as mesmas palavras ainda mais deliciosamente contagiantes…Acabei invariavelmente por ficar feliz naquele momento, mesmo sem ter visto qualquer parte do filme…

FIM


Não deixe de ir, novamente, à sessão de cinema. O filme é, realmente, um filme de impacto. E a pior companhia possível para assistir é a sua cara-metade. ao menos, enquanto eu desfrutava o filme, agradecia por ter levado comigo uma amiga.
Tem um texto sobre isso na SK.

Um grande beijo!
Karinassa a 16 de Fevereiro de 2005 às 22:24

Oh meu querido! Depois de um texto tão lindo, com um fim tão... terno, preparava-me para te enviar um beijo repenicado e tu... falas de política???!!! De sondagens???
No dia de S. Valentim?
Não levas beijo... mas, levas o meu :-) maroto... eheheh
Menina_marota a 14 de Fevereiro de 2005 às 21:16

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